Sábado, 27 de Janeiro de 2007

BALANÇO de 2006 - RAZÕES DAS PRINCIPAIS ESCOLHAS

BALANÇO DE 2006 – RAZÕES DAS ESCOLHAS

27jan07 – brancoev@gmail.com

 

MELHOR FILME DE 2006 – “New World (The)” (O Novo Mundo), de Terrence Malick, EUA, ***** (5)

De uma beleza deslumbrante, narra simultaneamente o início do estabelecimento das colónias inglesas na América, sob o signo da conquista do Novo Mundo e a história da curta vida da bela princesa índia Pocahontas (Q’Orianka Kilcher).

Malick faz também deste filme uma meditação sobre a depredação da Natureza pelos representantes da civilização ocidental, ao mesmo tempo que vão procedendo ao esmagamento sistemático de outras civilizações com que deparam. Há uma cena chave e magistral, quando o compatriota que acompanha Pocahontas na sua viagem a Londres, deambula nos jardins do palácio, perante uma natureza aparentemente domesticada.

Um filme excepcional e belíssimo. A merecer muito mais que uma única visão. O cineasta, com uma obra reduzida, assume-se no entanto como um dos mais importantes nomes da cinematografia actual, dada a sua invulgar qualidade.

 

MELHOR FILME PORTUGUÊS DE 2006 – “Transe”, de Teresa Villaverde, POR, ***** (5)

Um belíssimo e pungente filme sobre o tráfico de mulheres, que se inicia em S.Petersburgo, que, em pouco mais de duas décadas, se transformou numa cidade de marginalidade, drogas e prostituição, tal como aconteceu nas outras grandes cidades russas, onde as máfias imperam, e prossegue na Comunidade Europeia, onde os lobbies do proxenetismo procuram na actualidade (ver DN Magazine de 21jan07), com o apoio de governos venais, legalizar o comércio com base na exploração do corpo da mulher, cuja principal actividade é, como sabido, a prostituição.

Magnífica direcção de actores, com especial realce para Ana Moreira, na protagonista.

Embora a denúncia da cineasta seja importante, o filme vale acima de tudo pela interpretação e pela mestria das suas imagens e sequências, por vezes de uma beleza absoluta, ainda que trágica. Na linha da grande qualidade dos trabalhos anteriores da autora, em especial dos dois últimos – “Os Mutantes” e “Água e Sal” (sobre estes, consultar a última edição, de 2007, do “Time Out Film Guide”)

 

SEGUNDO MELHOR FILME PORTUGUÊS de 2006 – “Espelho Mágico (O)”, de Manoel de Oliveira, POR **** (4)

 

Um filme subtilmente irónico sobre a decadência das famílias solarengas da região duriense, uma vez mais baseado em obras literárias de Agustina Bessa Luís.

Com imagens de grande beleza, por vezes de intensa sensualidade, Oliveira utiliza primorosamente os espelhos, omnipresentes na obra, através dos quais, magicamente, filma as suas personagens femininas, e através dos quais elas se miram e remiram. Até a enfermeira, mulher aparentemente de outra condição, não resiste à tentação, numa das mais curiosas cenas do filme.

Leonor Silveira, a musa de tantos filmes do mestre, representa uma mulher ainda em plenitude física, mas frustrada, rodeada de padres, que lhe fazem crer, para seu grande contentamento, satisfazendo-lhe o espírito de classe, ter sido afinal a Virgem Maria, também filha de abastada família…

O discurso tem alguma teatralidade, o que não é defeito, antes pelo contrário, num cinema em que a palavra é rainha. Embora não seja um dos expoentes da sua obra, é um filme magnífico.

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO de 2006 – “Lisboetas”, de Serge Tréfaut, POR, **** (4)

Uma visão profundamente humanista, da nova metrópole em que Lisboa se transformou, com o afluxo da emigração de África, dos Orientes, da América, do Leste. A cidade começa a mudar, para melhor, com a multiplicidade de origens mais ou menos longínquas, mas recentes, dos seus novos habitantes.

O cineasta não esconde a exploração atroz de que a maioria é vítima, embora não faça análise sociológica e política. Mas muito longe também de o fazer através de um olhar de compaixão (feia palavra, que li algures, estupidamente empregue na crítica de um escriba de um jornal dominante (DN)), antes com a constatação de que é preciso mudar e dar aos novos lisboetas outro futuro.

E termina com um final comovente, com o nascimento de uma criança, cujos progenitores vieram de muito longe. Qual vai ser o destino destes seres, não deixamos de nos interrogar? Temos todos o dever de ajudar a dar uma resposta positiva a esta questão, contribuindo para a integração plena dos novos lisboetas.

 

MELHOR FILME, ESTREADO FORA DO CIRCUITO COMERCIAL – “Olga”, de Jayme Monjardim, BRA, ***** (5)

Belíssimo e trágico filme brasileiro, que narra a história real da vida, curta e intensa, de Olga Benario Prestes (Camila Morgato), que mesmo grávida, é presa e e depois deportada para a Alemanha Nazi, pelo governo brasileiro dirigido por Getúlio Vargas.

Perante a enorme pressão internacional, os nazis vêem-se no entanto forçados a autorizar que a criança entretanto nascida seja entregue no Brasil, à avó (Fernanda Montenegro), mas Olga é morta, nas câmaras de gás, em Ravensbruck, sem nunca renegar os seus ideais de luta por um mundo melhor.

Magnificamente interpretado e realizado, é um filme comovente, que se vê com muita emoção. Adaptado de um grande sucesso literário, do escritor e jornalista Fernando Morais, tornou-se um dos filmes de grande sucesso de público no Brasil, mas nunca foi exibido comercialmente em Portugal. Porquê?

 

A MINHA MAIOR DESILUSÃO EM CINEMA, DE 2006 – “Mary” (Maria Madalena), de Abel Ferrara, EUA, ** (2)

Embora aprecie a relativa independência do cineasta, face à indústria americana de cinema, esta sua última obra desiludiu-me, mesmo considerando o tema suficientemente interessante – retrato dos que rodeavam Jesus Cristo, antes da sua prisão e condenação à morte, entre os quais a sua companheira Maria Madalena, cuja presença assume importância no grupo. Esta visão, nada ortodoxa, não é suficiente, no entanto, em minha opinião, para “agarrar” o espectador. Lento, e por vezes obscuro, o filme não chega verdadeiramente a tocar-nos. O que é pena.

 

publicado por brancoev às 18:13
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