Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

DEZ

DEZ

Lisboa, Portugal, 13 de Dezembro de 2007

 

Uma eventual partida de um colega e amigo para a clausura, fez-me pensar na célebre escolha dos dez livros (a que acrescentei, da minha lavra, mais dois de poesia, dois livros de estudo, duas bandas desenhadas e duas peças de teatro), dos dez filmes (em DVD) e dos dez discos de música (em CD), que levaria para a ilha deserta, para o convento, para a clausura, qualquer que ela fosse (mesmo assim será necessária uma pasta grande, onde terão que caber ainda, evidentemente, mais alguns livros, de estudo, que farão parte de outra lista!).

Faço as minhas escolhas, obviamente entre o que tenho (e abra-se mais um parêntesis, para dizer, em relação ao comentário de um amigo, que a posse de livros e discos (raramente primeiras edições) ou cópias de obras de arte, não é afinal tão descabida como possa às vezes parecer, porque nos acompanham ao longo da vida; e não tem a ver com colecções, nem com investimentos, porque o seu valor comercial é praticamente nulo, mas com aquilo com que crescemos e que amamos).

E penso nisto, hoje, neste quase final de ano, neste Outono de triste memória, por este canto do continente, onde alguns, a maioria dos quais pouco conscientes, influenciados pela propaganda oficial que quase tudo domina, dão vivas a uma Europa, a dos poderosos (que tem justamente por principal objectivo domar, cerceando, os anseios dos Povos por uma vida mais livre, mais igualitária, mais fraterna, querendo imitar os vizinhos do outro lado do Atlântico; mas o que estou contra, não é a ideia de uma união de estados, desde que ela seja progressista, isto é, seja construída com o único objectivo de contribuir para a igualdade, a entreajuda, e o progresso social de quem dela fizer parte, respeitando sempre os grandes princípios da Humanidade; de outra forma, como acontece com esta união europeia em que nos forçam a viver, já que não fomos ouvidos nem achados para a sua formação e nem para as sucessivas alterações, só serve para cercear ainda mais os direitos dos povos que ela controla).

Dolorosas escolhas, porque põe de parte bastante do que gosto muito, a que juntei a conveniente, mas reduzida ao essencial, justificação da selecção, onde, como é óbvio, a parte sentimental também pesa muito. Por outras palavras, não é uma selecção do que considero melhor, mas apenas do que gosto muito e quero que me acompanhe sempre, se possível.

 

LIVROS (sempre por ordem alfabética)

 

-Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel Garcia Marquez: porque representa para mim um dos cumes do romanesco, com ressonâncias sociais, poético e fantástico.

-Até Amanhã Camaradas, Manuel Tiago (Álvaro Cunhal): porque ninguém descreveu tão bem a Resistência durante a longa noite fascista, que cobriu o nosso país durante quase metade do século XX e atravessou toda a mais fundamental parte da minha vida, desde a infância até à idade adulta. E fê-lo num belíssimo romance.

-Capitães da Areia, Jorge Amado: porque se trata, em minha opinião, de um dos mais belos (e do que gosto mais, mas podia enumerar mais alguns) livros sobre a adolescência, para mais, abandonada, sofredora e desprotegida.

-Cidade e as Serras (A), Eça de Queiroz: porque, embora seja póstumo, carecendo portanto da autorização do autor para publicação (porque o pretendia ainda melhorar), resume no entanto, num pequeno romance, o espírito satírico, e de crítica social, mas profundamente humanista, do autor, atingindo o máximo da comicidade na descrição das “delícias burguesas”.

-Crime e Castigo, Fedor Doistoievski: porque o romance psicológico e de crítica social atinge aqui, na minha opinião, a perfeição.

-Esteiros, Soeiro Pereira Gomes: porque nos fala, admiravelmente, das gentes do nosso país e do que sofreram, e resistiram, muito antes da alvorada do 25 de Abril. No início dos anos 70, trabalhei nos antigos Cimentos Tejo, então do Chapalimaud, e nunca esquecerei como a memória de Soeiro permanecia bem viva, como um exemplo para quem o conhecera e com ele trabalhara, alguns duramente, nos fornos ou sujeitos às poeiras, “caldeiradas” e elevadas temperaturas, naquela empresa, modelo das cruéis condições de trabalho da época.

-Leah e Outros Contos, José Rodrigues Miguéis: porque descreve magistralmente a Lisboa, onde crescemos. Nostálgico e belo.

-Memorial do Convento, José Saramago: porque conseguiu tornar heróis os esquecidos construtores deste país, num dos mais belos romances de amor, em minha opinião, do século XX.

-Montanha Mágica (A), Thomas Mann: porque nos fala do entrelaçar entre a vida e a morte, a que nenhum de nós escapa, mas que para alguns de nós, chega cedo de mais…

-Por Quem Os Sinos Dobram, Ernest Hemingway: porque nos fala, num belíssimo romance, do empenhamento cívico de muitos na Guerra Civil de Espanha, ao lado dos republicanos, como o autor aliás, que arriscaram e deram a vida, pelo primeiro grande combate, infelizmente perdido, contra o fascismo em ascensão.

-Antologia Breve, Pablo Neruda: porque se trata de uma das obras poéticas, tal como do Poeta aliás, de que mais gosto (embora possa acrescentar umas dezenas de nomes que fazem parte do meu Parnaso privado) e um dia, muitos anos atrás, mesmo sem Liberdade, copiei à mão, em metros e metros de papel o inesquecível “O Homem Invisível”, que cobria parte duma parede, do teto ao chão…

-Poemas, Miguel Torga: porque o espírito universalista poucas vezes atinge tão alto fulgor, como neste poeta que amava a Natureza e o Homem.

-Fábula de Veneza, Hugo Pratt: porque o traço magistral e o belíssimo e poético texto do autor, lhe conferem uma magia inigualável

-Torre (A), Schuiten e Peeters: porque me fascina, entre outros aspectos, a representação fantástica dos espaços arquitectónicos inventados pelos autores, mas sem esquecer os humanos que neles habitam…

-Gaivota (A), Anton Tchekov: porque o autor atinge aqui, na minha opinião, o máximo da sua obra genial, na descrição, aparentemente simples, dos sentimentos, alegrias, amarguras e decepções, que nos fazem viver. Consigo lê-lo e imaginar a emoção dramática, a mesma que as peças deste autor em geral sempre me causam, quando as vejo representadas, apesar de alguns dizerem que “nada se passa”.

 -Rei Lear (O), William Shakespeare: porque é uma meditação sobre a condição humana e o poder, genialmente escrita, a que a cena (ou a imagem) dá ainda maior grandeza. Aliás os mestres da Sétima Arte, Akira Kurosawa (“Ran”), Peter Brook (“King Lear”) e Grigori Kozintzev (“Karol Lir”) fizeram obras magníficas, baseadas neste texto de Shakespeare.   

-Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx: porque me fez (e faz) compreender que ainda muito está por fazer para combater a exploração do homem pelo homem.

-Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels: porque me fez entender as razões das desigualdades e de que é possível combate-las.

 

FILMES

 

-Carteiro de Pablo Neruda (O), Michael Radford: porque o cineasta e seu intérprete, Massimo Troisi, conseguiram dar um retrato admirável do Poeta, através de um pequeno episódio no último dos muitos exílios a que o forçaram.

-Cinema Paraíso, Giuseppe Tornatore: porque é a mais bela homenagem que conheço ao Cinema.

-Doce Vida (A), Federico Fellini: porque, mesmo que possa não ser a maior obra-prima do autor, é daqueles filmes mais fellinianos que conheço, em que as obsessões do cineasta (algumas que também partilho), são mais claramente expostas. Magistral!

-Grande Ditador (O), Charles Chaplin: porque é um dos mais fantásticos filmes de um dos maiores personalidades da Sétima Arte e não só. Produzido contra a vontade dos estúdios, que não queriam hostilizar o nazismo em ascensão, por simpatia ou receio, Chaplin produz ele próprio este filme profético, que ataca violentamente o nazismo, também pelo humor, em 1938-40! Acabaria por contribuir, anos mais tarde, num dos períodos mais fascizantes dos EUA - o maccarthismo, para a sua expulsão do país, e o regresso à sua Londres natal, onde é recebido em glória!

-Leopardo (O), Luchino Visconti: porque é uma das obras-primas absolutas do Cinema, fresco da queda do antigo regime, da reunificação italiana, da ascensão da burguesia, substituindo a decadente aristocracia. O jantar e o baile no palácio do Príncipe de Salina, estreias mundanas da muito bela Cláudia Cardinale, são duas entre as várias cenas de antologia deste filme, património do cinema universal.

-Manhattan, Woody Allen: porque a Manhattan de que o cineasta fala, num filme admirável, acaba também por ser ainda a minha, a da Greenwich Village, dos intelectuais judeus de esquerda, de uma inteligência progressista que o poder não conseguiu aniquilar. Temo porém que, nos tempos actuais, esteja reduzida ao mínimo…

-Meu Tio (O), Jacques Tati: porque representa para mim, o ponto mais alto do humor inteligente, satírico, humanista, onde o mal não existe, de Tati. Mas não deixa de ser, às vezes, comovente.

-Rio Sagrado (O), Jean Renoir: porque aqui o cineasta foi longe na meditação da condição humana, no que é, em minha opinião, um dos mais belos filmes da história do cinema e não me canso de rever desde a adolescência. Também porque nos fala da nossa perenidade. E sendo assim, para quê esquecer a ética, que afinal é aquilo de que mais nos podemos orgulhar?

-Sétimo Selo (O), Ingmar Bergman: porque é, em minha opinião, talvez o mais belo dos filmes deste génio da sétima arte. Meditação sobre a vida e a morte, tem momentos de uma beleza inexcedível, também de comunhão entre a vida e a natureza. Apólogo medieval, tem como principais personagens, saltimbancos, que eram na Idade Média os artistas populares por excelência.

-West Side Story, Robert Wise: porque foi a cinematização perfeita, com coreografias de Jerome Robbins, da obra famosa do grande compositor e maestro norte-americano, Leonard Berstein. Profundamente anti-racista, para além da beleza da música e dos cantos líricos, foi magnificamente filmada, por Wise, sendo a sua indiscutível, em minha opinião, obra-prima.

 

MÚSICA

 

-Adriano Correia de Oliveira - Antologia: porque cantou como mais ninguém alguns dos nossos maiores poetas (Manuel Alegre, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, etc, etc)

-Americano em Paris (Um), Rapsódia Em Azul,  de George Gershwin; On the Waterfront, de Leonard Berstein (que dirige): porque são dois dos compositores de quem mais gosto e, relembre-se “Um Americano em Paris” foi adaptado magistralmente ao cinema, por Vincent Minnelli (e representado por Gene Kelly) e “On the Water Front” é a música do famoso filme homónimo de Elia Kazan (com Marlon Brando)

-Chico Buarque – Antologia: porque se trata de um enorme canta-autor (e belíssimo escritor – relembrar a sua obra-prima “Budapeste”), mas que também tem no seu repertório grandes poetas, como Vinicius de Moraes, em “Operário em Construção”.

-Concerto em Frankfurt, Carlos Paredes: porque, dizem, e eu concordo, que a sua belíssima música tem muito a ver connosco, portugueses – alguma nostalgia, mas sempre uma esperança em melhores dias, que nunca morre. 

-Dulce Pontes – Antologia: porque é, uma das mais belas vozes (entre tantas que felizmente temos) que nos encanta e por vezes, nos maravilha, até a cantar José Afonso, “Os índios da Meia-Praia”.

-Homem na Cidade (Um), José Carlos Ary dos Santos / Carlos do Carmo: porque se trata de uma das obras-primas, poética e musicalmente, e magistralmente interpretada, da música portuguesa.

-Nocturnos de Chopin, Maria João Pires: porque consigo ouvir durante horas a sua magistral interpretação.

-Cantigas de Maio, José Afonso: porque é um dos discos, que me acompanha desde que surgiu nos já longínquos anos 60. Belíssimo e inesquecível.

-Por Este Rio Acima, Fausto: porque é outra obra-prima da discografia portuguesa. Escrito para a representação da adaptação da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, pela Barraca e o Hélder Costa.

-Sinfonias – Júpiter e outras, Mozart: porque entre tanto que gostaria de levar (Shostakovich, Sibelius, Verdi, Schubert, Beethoven, Mahler, Prokoviev, etc, etc,) teria que escolher um! E é dos que gosto mais também!

 

13dez2007

publicado por brancoev às 09:28
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