Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

ESQUECIDOS OU MAL AMADOS

FILMES DOS ANOS 2000 A 2006

02fev07 – brancoev@gmail.com

 

Alguns dos meus filmes preferidos neste período, para lá das grandes obras, que as houve e muitas (de Woody Allen, Spike Lee, Abbas Kiarostami, Agnes Varda, Manoel de Oliveira, Robert Altman, Pedro Almodóvar, Nanni Moretti, Jacques Rivette, Roman Polanski, Zhang Yimou, João César Monteiro, Fernando Meirelles, Ingmar Bergman, Terrence Malick e outros). Filmes que o gosto dominante esqueceu (ou fez por esquecer…), por razões que têm pouco a ver com cinema (políticas, ideológicas ou outras), e de que todavia gostei muito.

Entre eles está, inclusive, o que é, em minha opinião, uma obra-prima absoluta, “Life is a Miracle” (A Vida é um Milagre), de Emir Kusturica.

Limitei-me aos filmes exibidos comercialmente em Portugal, razão porque não refiro, por exemplo, “Até Amanhã Camaradas” de Joaquim Leitão ou “Olga” de Jayme Monjardim.

 

ERIN BROCKOVICH, de Steven Soderbergh (EUA), 2000 –

Um grande filme de Soderbergh. Os excessos da crítica ultra-conservadora (DN) fizeram com que a protagonista, admiravelmente representada por Júlia Roberts, fosse apelidada de “proletária pimba”e o filme sumariamente “chumbado” …

No entanto a obra foi um dos melhores filmes exibidos entre nós no ano 2000, e a reconfirmação do cineasta, que haveria depois de nos continuar a dar obras excelentes. (8abr2000)

LOVER LABOUR LOST (Difícil Renúncia), de Kenneth Branagh (GBR), 2000

Uma obra paradigmática de Branagh, adaptando uma vez mais o genial dramaturgo William Shakespeare, mas juntando-lhe desta feita a música, inolvidável, de grandes compositores norte-americanos – George e Ira Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Jerome Kern. O resultado é um magnífico prazer cinéfilo. (16set2000)

CAPITÃES DE ABRIL, de Maria de Medeiros (POR), 2000 -

Uma evocação da Revolução de Abril, feita por uma cineasta da geração seguinte. No entanto, para nós, que a vivemos intensamente desde o primeiro minuto, o resultado é comovente.

Embora a ficção não deva sobrepor-se à realidade, mais a mais quando se trata da “semana mais inesquecível das nossas vidas”, Maria de Medeiros conseguiu realizar uma obra admirável. (21abr2000)

UNBERÜHRBARE (Solidão), de Oskar Röhler (ALE), 2001 –

Um filme interessante, embora ideologicamente ambíguo, razão aliás porque passa na censura actual, velada mas cortante.

Quando tudo desaba à nossa volta, que fazer? Hannelore Elsner, é magnífica no papel de uma escritora que afoga o seu desalento no álcool, no tabaco, nos barbitúricos, drogas suaves em suma.

O pensamento que a obra, intimista, me fez aflorar, foi o da terrível cobardia (que não é, apesar de tudo, a da protagonista) de uma maioria de intelectuais, supostamente progressistas. Onde estão eles agora, perante um mundo de novo submergido pelo regresso da mais feroz exploração, do retorno da corrupção e dos cancros sociais – a miséria, o desemprego, a marginalidade, a prostituição e a droga? (9dez2001)

MALÈNA, de Giuseppe Tornatore (ITA), 2001 –

Um muito interessante filme sobre a Itália dos anos 30-40, retratando sem simpatia uma mentalidade intolerante, xenófoba, racista e ao mesmo tempo tremendamente hipócrita, criada com a devota ajuda da Igreja. É talvez por isso que Tornatore é um mal amado da crítica hoje dominante, resultado da privatização da comunicação e do domínio do grande capital nos media. (25jun2001)

HIJO DE LA NOBIA (EL) (O Filho da Noiva), de Juan José Campanella (MEX), 2002 –

Uma magnífica comédia, baseada na actual realidade social da Argentina (e não só). Enquanto os pais procuram minimizar os terríveis malefícios da doença de Alzheimer, que ataca a mãe, o filho luta pela sobrevivência do negócio dos pais – um restaurante – num mundo cada vez mais infestado pelas grandes cadeias (made in USA) de fast food, hamburgers e pizzas. (19ago2002)

CRIMEN DEL PADRE AMARO (EL), de Carlos Carrera (MEX), 2002 –

Uma adaptação surpreendente de um dos nossos grandes clássicos, Eça de Queirós, mas transposto para um México actual, com todos os seus problemas, que são afinal também universais.

Para nós, surpreende-nos que tenham que ser afinal os outros a adaptar bem alguns dos nossos clássicos (uma versão comercial e medíocre, surgida em 2006 em Portugal, centrava-se fundamentalmente no sexo, que é afinal o que menos importa na inesquecível obra do Eça). (31dez2002)

ÁGUA E SAL, de Teresa Villaverde (POR), 2002 –

Outro filme admirável, de uma jovem cineasta portuguesa, aparentemente apenas sobre uma mulher em crise, mas que não se fecha nos seus problemas intimistas e se abre ao exterior, à vida que a rodeia e, mais do que se isso, não se recusa a intervir, ainda que corra riscos. À enorme beleza das imagens, à excelência da direcção de actores, junta-se a qualidade, rara, de nos fazer sentir com inteligência. (17fev2002)

BOWLING FOR COLUMBINE, de Michael Moore (EUA), 2003 –

Esta obra não necessitava ser incluída nesta lista, dado o enorme sucesso comercial que teve. No entanto, porque entre nós, os efeitos devastadores de uma crítica de direita que arrasa tudo o que não lhe agrada ideologicamente, acabou por ter os seus efeitos junto de certos meios intelectuais, justifica-se a chamada de atenção. Porque se trata realmente de um magnífico documentário, que traça um diagnóstico assustador dos EUA e da violência da sua sociedade.

E no ano seguinte Michael Moore dar-nos-ia outra obra magnífica, sobre a situação do seu país, mas ainda mais política, e por essa razão ainda mais atacada – FAHRENHEIT 9/11. (Palma de Ouro em Cannes). (17abr2003)

ÉGARÈS (LES) (Os Fugitivos), de André Téchinè, (FRA), 2003 –

O pano de fundo do drama é a ocupação da França pelos nazis, em 1940. Téchinè, enquanto nos mostra o pânico e amargura das populações arrancadas brutalmente ao seu modo de vida pelo invasor e seus “colabos”, incide o seu olhar sobre um par de seres, aparentemente desamparados, mas já de si notáveis pela sua maneira de ser, que se conhecem, e se relacionam, numa situação de grave crise social. Tudo isto com a contenção e sensibilidade, raras, deste cineasta. Mesmo numa belíssima cena de amor. (25nov2003) 

MILAGRE SEGUNDO SALOMÉ (O), de Mário Barroso, (POR), 2004

Adaptação magnífica do famoso romance homónimo de um dos nossos maiores escritores, José Rodrigues Miguéis. Apesar das limitações da adaptação, o filme tem a marca e a inteligência do grande escritor que muito apreciamos, sobre um período conturbado da vida portuguesa, a novel República, à beira do primeiro golpe de cariz fascizante, o de Sidónio Pais. Meia dúzia anos depois, em 1926, a democracia seria violentamente subjugada, iniciando-se a longa noite da ditadura fascista. (14mai2004)

MEGLIO GIOVENTÚ (A Melhor Juventude), de Marco Túlio Giordana. (ITA), 2004 –

As últimas quatro décadas do século XX, revistas através da vida de uma família e amigos próximos. Das esperanças do Pos-Guerra ao desencanto da construção da União Europeia das multinacionais e dos grandes interesses económicos, que agrava a exploração os seus povos. Clássico na forma, interessante e muito bem feito. (25set2004)

LIFE IS A MIRACLE (A Vida é Um Milagre), de Emir Kusturica, (JUG), 2004

Para mim foi simplesmente o melhor filme que vi em 2004. Se o trago para aqui é porque, uma vez mais, a rebeldia e independência de Kusturica, e apesar de ser, na minha opinião, um dos maiores cineastas vivos, o tornam um mal amado para a crítica dominante.

Mas nesta obra-prima perpassam, sem sombra de dúvida, os grandes sentimentos, as grandezas e misérias do Homem, e o fascinante retrato que Kusturica traça do seu povo, com as suas contradições, pequenas e grandes como qualquer outro. E consegue emocionar-nos. (20nov2004)

MOTORCYCLES DIARIES (THE) (Diários de Che Guevara), de Walter Salles (BRA/EUA), 2004 –

O cineasta que nos havia dado um extraordinário “CENTRAL DO BRASIL”, é mais uma vez brilhante nesta sua incursão pela juventude do mítico revolucionário Che Guevara, durante a viagem deste com um amigo, ao longo de 13 mil quilómetros, de motocicleta e à boleia (quando aquela avariou), através da América do Sul, miserável e explorada, nos anos 50. (17out2004)

DREAMERS (THE) (Os Sonhadores), de Bernardo Bertolucci, (ITA), 2005 –

Bertolucci ressurgiu em grande forma nesta obra, tendo como pano de fundo o Maio de 68, mas sendo também uma homenagem ao Cinema através da cinefilia dos seus personagens, e mais uma vez com o seu gostinho especial pela provocação às mentes conservadoras, com um voyeurismo descarado, o que lhe valeu a ira dos críticos de mentalidade mais retrógrada… Um grande filme. (4fev2005)

VERA DRAKE, de Mike Leigh, (GBR), 2005 –

A obra de Mike Leigh, magnífica como quase tudo o que este cineasta tem feito, aborda com seriedade o tema do aborto clandestino, e não poderia ser mais clara na sua abordagem, mostrando como a questão tem um carácter social.

Enquanto as mulheres provindas das classes abastadas fazem abortos em clínicas de luxo, raramente pondo a sua vida em risco, todas as outras correm sérios riscos, mesmo quando as abortadeiras tem alguma consciência social, como era o caso de Vera Drake.

O filme passa-se nos anos 50, na Grã-Bretanha, onde a despenalização seria por fim aprovada em 1967. Em Portugal, será que em 11 de Fevereiro de 2006 se dará finalmente esse passo de humanização? Com este tema não é de estranhar as reticências postas, em Portugal, ao filme. (6fev2005)

KAMCHATKA, de Marcello Piñeyro, (ARG), 2005 –

Um dos mais belos filmes do ano de 2005, cuja história trágica, nos é contada através dos olhos de uma criança, que assiste ao desaparecimento dos pais, que não voltarão mais, e se desenrola num dos períodos mais sombrios da história argentina recente – a ditadura fascista do general Videla, nos anos 70 e 80. Uma obra que não conseguimos esquecer. (6mai2005)

FATALISTA (O), de João Botelho, (POR), 2005 –

Um dos filmes mais perfeitos deste cineasta, mas que a crítica dominante desprezou. Ironicamente moralista, baseado na obra homónima de Diderot, com um magnífico grupo de actores, vê-se com enorme prazer. (11dez2005)

ROIS ET REINE (Reis e Rainha), de Arnaud Desplechin, (FRA), 2005

De uma densidade psicológica rara, admiravelmente dirigido e interpretado, foi um dos melhores filmes de 2005. História de um período difícil na vida de uma mulher (Emanuelle Devos) e dos comparsas que a rodeiam (pai, ex-marido, amante, filho). (8dez2005)

GABRIELLE, de Patrice Chéreau (FRA), 2006 -

De Chéreau espera-se quase sempre o excepcional. E esta obra é-o sem dúvida. O que é admirável é a utilização que o autor fez dos meios da linguagem cinematográfica (antigos e modernos) para, com intenso formalismo, contar uma história, baseada em Joseph Conrad (“The Return”), para a qual contou com uma das grandes divas do palco e da tela, nos nossos dias – Isabelle Hupert. (4fev2006)

KLIMT, de Raúl Ruiz (CHILE), 2006 -

Quase ninguém reparou, a não ser para dizer mal (os detractores habituais do cineasta chileno, ultra-conservadores, que até lhe chamaram desta vez pornográfico (DN)) em mais esta obra magnífica de Ruiz, sobre a vida e obra do pintor vienense Gustav Klimt (1862-1918), (outra magnífica interpretação de John Malkovich).

Ruiz descreve a estranha Viena de então, onde coexistem a criatividade mais audaciosa e o conformismo mais reaccionário, o cosmopolitismo da sociedade e a corrente pré-fascista em ascensão, o turbilhão dos prazeres e o pressentimento do fim, a aparente imortalidade do Império e os sinais da sua desagregação iminente. Filme de enorme riqueza de detalhes, intenso erotismo, foi uma das melhores e mais interessantes obras de 2006. (29jun2006)

 

 

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publicado por brancoev às 14:53
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